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Blog da Vanessa D Auria Porcelanas de mãe Ai gente, estou aprendendo a ser uma humana melhor a cada dia, e confesso que não é fácil, na verdade nada contribui justamente para que você enfrente inteiramente a questão, o problema ou até mesmo um objeto. Vou dizer, quebrei um prato de porcelana para servir sobremesa do jogo do casamento de minha mãe, e fui eu quem insisti que tirasse do armário para usar com a frequencia das necessidades mais comuns do dia, justificando que os pratos antigos estavam se quebrando em partes pouco a pouco, pura verdade. Acontece que nesse dia estávamos eu e ela na cozinha alegremente fazendo um lanche a compartilhar o mesmo espaço, e então que preparo meu pão de forma com manteiga para colocar num daqueles forninhos pequeninos com o tal prato de apoio, foi aí que imediatamente ela disse: - Não! A tá a porcelana não vai ao forno. O que me fez parar. Com muita fome cumpri o sagrado dever de filha que é obedecer, e retirei do forninho, só que tal forninho é coisa nova em casa, quero dizer, minha tia já velhinha se desfez dele, sendo assim estamos na fase inicial do manuseio, seguindo abri a tampa que não tinha aquela alavanca automática que puxa a portinha de volta, só que eu não sabia, danou-se, ela caiu sobre o prato e um parte dele se quebrou. Agi mal, pronto falei. É que aí fiz um retrospecto da vida da minha querida mãe, aquele prato de porcelana era muito mais caro do que eu imaginava, em outros sentidos, tinha até significado especial, lembranças de uma vida. Sei lá, na tentativa de ajudar minha mãe a curtir as coisinhas dela ainda guardadas de casamento, meti os pés pelas mãos, não resta dúvida. Pedi: - Mãe não vamos brigar por um prato, por favor, vamos comer nosso lanche, eu não sabia que essa portinha do forno não tinha mola, e respirei entristecida. Como se uma pedra tivesse caído na minha cabeça, no mesmo tempo do barulho do estilhaço, senti em mim a mesma tristeza e me pus no lugar dela, não teria agido com delicadeza, nem sabedoria, coisas que ela me ensinou. Fitei o prato devagar quebrado e vi que tinha pequenas florzinhas do campo amarelas pintadas em torno dele, na borda do círculo do prato, era lindo, tão romântico. Incrível, depois de nós comermos nossos lanches em silêncio não podia olhar para ele que já não tinha concerto, pus o prato na mureta do quintal dos fundos, sabendo que na manhã seguinte iria para um saquinho separado e depois lixo, pois os cacos precisam ser isolados. Se não se toma cuidado em tudo nessa vida, quebra-se a cara, é sério, tudo tem um certo perigo, alguma fragilidade embutida, mesmo que nossos olhos, no exato momento não possam ver, nem ao menos imaginar, acredito nisso. O valor de cada coisa, de cada pessoa, de cada momento, me veio isso agora. Não tem proporcões de catástrofe o acontecimento e não estou querendo levar pra esse lado, o que parece mais simples, até um objeto pode ter um coração que pulsa, talvez não para nós, mas para a pessoa que o possui, também não falo de apego, é a aura que envolve o que temos de material por ter ficado conosco certo tempo e acaba por fazer parte de uma história. Não me casei ainda, e não tenho pratos de porcelana para sobremesas, se um dia os tiver os verei com meu olhar, contudo jamais esquecerei minha mãe e o seu olhar para o seu prato. Cada um merece o respeito pelo que é, pelo que viveu, e ao que dispensa amor, por menor que seja uma coisa ou aparentemente insignificante, acontece que o ser humano tende a ser egoísta, verifica quais são seus sentimentos, vive em torno das suas emoções, mas dificilmente quer se envolver com os outros, rir e chorar por coisas iguais, isso pode ser bom, certamente que sim. No fim pensei que se um dia fosse ao supermercado e encontrasse o mesmo prato compraria na hora e reporia logo, por ter partido o coração da minha mãe. Foram meus gestos, minhas palavras, minha atitude que puseram tudo a perder, também o prato. O que me conforta é que posso dar o melhor de mim para minha mãe, depois de tudo aprendi, não o prato de volta, mas algo muito mais bonito, ainda não sei, não escolhi, mas percebo que o tempo de eu saber está muito próximo. Escrito por Vanessa às 20h23 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Invencível Na rua hoje, voltando da padaria com uma latinha de fanta uva na sacola plástica, indevidamente praticada, mas não pensei, queria me livrar do vazio do estômago e um tipo de coisa inóspida que não deixava eu sossegar. De modo comum, alguns vizinhos ficam nos seus portões debruçados, falando coisas da vida, contando casos, trocando idéias, filosofando talvez, os mais avoados, eu creio, e dei de cara com duas moçinhas, três casas depois da minha, lado direito, as duas de roupa tão clara que mais pareciam estar sob nuvens, nos semblantes havia leveza e um toque de alegria, me pararam. Certamente isso iria acontecer, de me parar, pois em meu estado, recém caída da escada de casa, com hematomas no rosto e pontos na testa, além de uma aparência de acidentada, sem chance de disfarce, o fato se deu. Só posso dizer que valeu a pena, teve uma horinha que pensei, acho que vou sair daqui mais bola mucha do que cheguei e o papo vai ser daqueles que as pessoas ficam afirmando, não acredito, e repetem, o que é pior, mas não. Não, não foi assim, resolvi abrir o caso todo, e contei como eu literalmente deslizei pelos degraus de casa, colidindo com a mesma, e depois com a estrutura da parte de tras do sofa, de madeira, olha, foi duro, muito duro, se minha testa falasse diria, a escada feita de mármore e o sofá como já contei, minha cabeça resistiu, até agora está legal comigo, dói vez em quando e me gira em tonturas advindas do chacolhamento cerebral, que segundo o doutor vai se estabilizar, ó céus, vai sim. Então, como dizia da vizinhas, contei tudo, e uma delas, a de roupa toda branca me disse: - “Olha você agora me parece mais humana, agora sabe que não é invensível, vai crescer com isso”. Caracas, eu não ia refletir nesse nível tão alto, foi surpresa, boa é claro, a moçinha tinha razão nas palavras, vê lá se o acidente foi bom, não, não é isso, o que foi é que ela quis dizer que causas e efeitos talvez tivessem significado na vida da gente. Na hora, ela me convenceu, parecia adivinhar meu pensamento, ou melhor meu sentimento em relação a certas coisas do cotidiano. Porque ninguém é invensível, do tipo eu posso tudo e dou conta de tudo, se for pensar assim, vai dar com a cara no muro, arre égua, será um tolo na sua ignorância. Acertamos e erramos, e existe um algo na natureza de todas as coisas e pessoas, e essencialmente mesmo nas diferenças, que nos mostra que precisamos uns dos outros, e juntos seremos fortes, aprenderemos mais, com todos os detalhes juntos de todos juntos. Queria me atrever a dar o nome de riqueza para tal processo, Kafka me mataria, por não ter me aprofundado no tema, ainda prefiro deixar, já dei nome mesmo. Uma amiga do trabalho costuma brincar: - “Tudo mundo junto misturado”. Gostou (interrogação). Faça uma visita à Luciana, a Lu, como a chamo, amiga de trabalho de pouco tempo, gente finíssima e de fé, então ela irá detalhar, e tem outras também, inclusive faz uma dançinha logo de manhã cedo e certas vezes à tarde, quando gostaríamos de jogar tudo para o ar, ou vemos algo engraçado, gesticulando as duas mãos, de um lado para o outro lentamente, balançando o corpo, mais a cabeça, em sincronismo e cantando uma música que é, não lembro bem: nãnãnãnã...e vai dançando, alguns acompanham animados, um show. Já ia perdendo o fio da meada, que agora parecem ser muitos, menino falo de várias assuntos num só tema, voltaria eu para as aulas de Língua Portuguesa atualíssima por sinal. Vamos lá, depois de tudo, fui me despedindo das vizinhas que me desejaram a boa sorte e disseram que fosse na companhia de Deus, foi bom, fui indo então pra casa, e ao abrir a porta minha gata, a Felícia, se aproximou, ai gente como é bom animal, é igual a gente o calor e o coração batendo, a vida dela se juntou a minha. Nada mais faltava, abri a latinha de fanta uva, bebi rápido, já tinha perdido o gelo, apertei a gata num abraço, ela miou, sempre faz isso, subi para o quarto, ela me seguiu e sosseguei, nesse dia não havia mais nada pra contar.
Escrito por Vanessa às 20h20 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] |
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